Chernobyl e Fukushima entraram para a história como dois dos maiores acidentes nucleares já registrados. Décadas depois, as áreas esvaziadas por humanos também passaram a revelar uma transformação inesperada: a volta de animais selvagens.
Em 2025, um estudo massivo intitulado
“O impacto humano global na biodiversidade” revisou quase três mil artigos para
quantificar a interferência humana no meio natural, e as zonas de exclusão citadas acima aparecem como exemplos importantes desse resultado.
Ocorrida em 2011, a zona de evacuação de Fukushima é um dos casos mais recentes a serem explorados. A cidade japonesa passa por um repovoamento gradual, porém ainda há zonas vazias, ao menos de humanos.
Um
estudo publicado em 2020 instalou câmeras em áreas evacuadas e registrou mais de 267 mil imagens de animais selvagens.
As câmeras flagraram mais de 20 espécies, incluindo javalis, macacos-japoneses, lebres, faisões, raposas e cães-guaxinim. O resultado mostrou que muitos animais continuaram usando a paisagem, mesmo em regiões afetadas pelo acidente.
Um
estudo de 2022 analisou 221 amostras de músculo de javalis capturados dentro e ao redor da zona de difícil retorno. Os resultados apontaram
maior presença de césio-137, um isótopo radiotivo usado na usina, nos animais dessas áreas.
Ou seja: a fauna voltou, mas ainda existem sequelas deixadas pelo acidente nuclear. Apesar disso, a vida ainda consegue encontrar uma maneira de flroescer, não porque o ambiente deixou de ser contaminado. Ela voltou porque a pressão humana diminuiu.
Chernobyl tem uma base de estudos mais longa, já que o acidente aconteceu quase 25 anos antes de Fukushima. A antiga cidade de Pripyat e seu entorno passaram por uma renaturalização intensa, com vegetação tomando prédios, ruas e áreas abertas.
Em 2016, a Ucrânia criou a Reserva Radioecológica da Biosfera de Chornobyl, dentro da antiga zona de exclusão. A área consolidou um território onde a pesquisa científica e a conservação passaram a conviver com o legado da contaminação.
Um
censo de 2015 observou mais de 60 espécies de mamíferos, com destaque especial para a população de grandes mamíferos.
A radiação não parece ser um impedimento para o florescimento da vida selvagem. Dados do mesmo censo apontam que as populações de grandes mamíferos — como alces, corças, javalis e cavalos — já apresentam números semelhantes aos de outras reservas não-radioativas. Enquanto a população de lobos é quase sete vezes maior que o normal.
Algumas espécies parecem lidar melhor com ambientes contaminados do que outras. Em Chernobyl, pesquisadores observaram pererecas-arborícolas-orientais com coloração mais escura em áreas afetadas pelo acidente.
Um
estudo publicado em 2022 investigou essa mudança em machos da espécie
Hyla orientalis. A hipótese é que a melanina ajude a reduzir danos celulares ligados à radiação ionizante.
Adaptações ainda mais extremas são encontradas nos
fungos melanizados. Um
estudo publicado na PLOS ONE em 2007 descobriu algumas espécies de fungos que começaram a utilizar a radiação ionizante como parte do seu metabolismo.
Essa descoberta ficou famosa como radiossíntese. Um processo que possui análogos com a fotossíntese, em que a radiação é utilizada como "combustível" nos processos internos do organismo destes fungos.