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Doenças que estavam sob controle voltam a preocupar e especialistas fazem alerta sobre vacinação

Dados do Ministério da Saúde revelam que apenas duas das 16 vacinas infantis atingem a meta nacional de cobertura

Por Perla Ribeiro

Publicado em 08 jun 2026 às 16:17

Manchas vermelhas são um dos sintomas do sarampo
Manchas vermelhas são um dos sintomas do sarampo Crédito: Shutterstock
O Dia da Imunização, em 9 de junho, chega em 2026 com um contexto inédito: o Brasil se prepara para enviar torcedores à Copa do Mundo nos Estados Unidos, Canadá e México, precisamente os três países responsáveis por mais de dois terços dos casos de sarampo nas Américas. Em 2025, os EUA registraram 2.144 casos de sarampo, com transmissão ainda ativa e mais 1.792 confirmados em 2026. O Canadá, com 5.062 registros em 2025, perdeu o status de país livre da doença. Em 2026, já são 907 casos canadenses. Diante disso, o Ministério da Saúde lançou em abril de 2026 uma campanha específica orientando viajantes a verificarem e atualizarem a caderneta de vacinação antes do embarque.
O alerta não é só para quem viaja. Dentro do Brasil, o cenário vacinal exige atenção. Dados preliminares do Painel de Cobertura Vacinal do Ministério da Saúde mostram que apenas duas vacinas do calendário nacional atingiram em 2025 a meta mínima de 95% estabelecida pelo PNI: a BCG, com 96,8% de cobertura, e a hepatite B neonatal, com 95,1%. O restante do calendário — incluindo tríplice viral, poliomielite, pneumocócica e meningocócica — ficou abaixo do limiar considerado seguro para evitar surtos.
No sarampo, o Ministério da Saúde registrou dois casos confirmados em 2026 até a semana epidemiológica 14, um em São Paulo, associado a viagem internacional, e um no Rio de Janeiro, com ausência de registro vacinal. O Brasil mantém o certificado de país livre do sarampo, concedido pela OPAS em 2024, mas a pressão externa é crescente. Em 2025, a Região das Américas confirmou 14.891 casos de sarampo e 29 mortes em 13 países, aumento de 32 vezes em relação aos 466 casos de 2024. Cerca de 78% dos casos ocorreram em pessoas não vacinadas ou com histórico vacinal desconhecido.
Na coqueluche, a situação é igualmente preocupante. Segundo Alerta Epidemiológico da OPAS, entre as semanas epidemiológicas 1 e 19 de 2025, o Brasil registrou 1.634 casos confirmados de coqueluche, incluindo cinco óbitos — o segundo maior número de notificações no país desde 2019. Em 2023, o país havia registrado apenas 216 casos no ano inteiro; em 2024, esse número saltou para 7.440, o maior em uma década, reflexo da queda nas coberturas vacinais entre 2016 e 2021, da natureza cíclica da doença e da retomada das interações sociais pós-pandemia.
"Estamos assistindo ao retorno de doenças que haviam deixado de fazer parte da rotina clínica. Quando a cobertura cai abaixo do limiar seguro, o vírus encontra brechas — e age rapidamente, especialmente em crianças não vacinadas e adultos com esquemas incompletos", afirma Alberto Chebabo, infectologista do Alta Diagnósticos, no Rio de Janeiro, marca da Dasa.
O ponto cego: a vacinação do adulto
A queda nas coberturas não se restringe à infância. Uma campanha de resgate do Ministério da Saúde para jovens de 15 a 19 anos não vacinados contra o HPV — a primeira vez que essa faixa etária tem acesso à vacina pelo SUS — tem como meta alcançar cerca de 7 milhões de jovens. Até dezembro de 2025, apenas 208,7 mil doses haviam sido aplicadas nesse grupo. O prazo foi prorrogado até junho de 2026.
O problema se estende a adultos em geral. O próprio diretor do PNI, Eder Gatti, declarou que o Brasil não atinge a maior parte das metas de cobertura vacinal pelo menos desde 2014, passando por inclusive, avanço da desinformação. "Recebemos com frequência adultos que não sabem quando tomaram a última dose da tríplice bacteriana, que nunca completaram o esquema de hepatite B ou que desconhecem que precisam de reforços ao longo da vida. A carteira vacinal do adulto é tratada como algo opcional, e não é", afirma a coordenadora em vacinas da Dasa, Maria Isabel de Moraes-Pinto.
Por que a população não se vacina?
Pesquisa sobre hesitação vacinal identificou que os principais motivos para a não vacinação no Brasil são questões de confiança (41,4%), dúvidas sobre eficácia e segurança (25,5%) e medo de eventos adversos (23,6%). Entre as vacinas com menor adesão está a da Covid-19, que atingiu apenas 3,49% de cobertura entre crianças em 2025 — reflexo direto da disseminação de desinformação sobre esse imunizante específico, segundo o Ministério da Saúde.
No primeiro semestre de 2025, o Ministério da Saúde aplicou mais de 1 milhão de doses em escolas de 4,1 mil municípios pelo Programa Saúde na Escola. Serviços de vacinação domiciliar, disponíveis na rede privada — incluindo a Dasa —, complementam essa estratégia ao eliminar barreiras práticas para idosos, famílias com crianças pequenas e pacientes com dificuldade de deslocamento.
"Quando conseguimos levar a vacina até a pessoa, eliminamos a principal barreira para o adiamento. No caso de idosos e pacientes com doenças crônicas, essa conveniência pode ser decisiva para manter esquemas vacinais completos", reforça Maria Isabel. Entre as vacinas recomendadas para adultos com maior frequência de atraso estão influenza, covid-19 atualizada, hepatite B, tríplice bacteriana e febre amarela, conforme a região. Para idosos, pneumocócica e herpes-zóster completam o esquema prioritário.

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